Uma Lei para Todos os Artistas
- Tony Ferrari

- 25 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de dez. de 2025

“Caía
A tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...”
Muitos de nós consegue reproduzir o que vai além dessa estrofe musical cantando-a, tocando-a, assoviando, enfim; provavelmente poucos das gerações mais recentes denominadas “Y” ou “Z” o faria, entretanto, seus pais e avós até hoje a curtem mesmo não compreendendo a letra integralmente ou sabendo quem foi um dos gênios compositores brasileiros por detrás da obra.
"O Bêbado e o Equilibrista" é uma canção de autoria da dupla João Bosco e Aldir Blanc (foto acima), interpretada por Elis Regina, que se tornou o "Hino da Anistia" por retratar a esperança de retorno dos exilados durante o fim da chamada “Ditadura Militar” no Brasil (1964-1985). A melodia de João Bosco começou como uma homenagem ao ator Charles Chaplin após sua morte, em 1977, enquanto a letra de Aldir Blanc, inspirada pelo exílio do sociólogo Betinho (irmão do cartunista Henfil), projetou essa homenagem para o contexto da realidade brasileira, misturando metáforas chaplinianas com a luta pela anistia e consequentemente a liberdade de expressão.
Aldir Blanc (1946-2020) foi um dos maiores letristas da música popular brasileira. Carioca, nascido no bairro do Estácio, ele se formou em medicina, mas abandonou a carreira para se dedicar inteiramente à música e à literatura.
Sua genialidade se manifestou na capacidade de criar letras complexas, poéticas e cheias de referências. Muitas de suas composições são consideradas crônicas do cotidiano, abordando temas como a boemia, a solidão, o amor, a crítica social e a política, sempre com uma linguagem única e rica em metáforas.
A parceria mais famosa de Aldir Blanc foi com o violonista e compositor João Bosco. Juntos, eles criaram ainda outros clássicos inesquecíveis como, "Incompatibilidade de Gênios"; "Kid Cavaquinho"; e "Nação".
Além de João Bosco, Aldir Blanc também colaborou com outros grandes nomes da MPB, como Guinga ("Catavento e Girassol", "Porta de Ouro"), Maurício Tapajós ("Disparada" - versão em inglês), e Ivan Lins ("Começar de Novo").
Sua obra é vasta e eclética, e suas letras foram interpretadas por artistas de diversas gerações, como Elis Regina, Maria Bethânia, Fafá de Belém e Emílio Santiago.
O "vascaíno incurável" (torcedor do time de futebol Vasco da Gama) também se destacou como escritor e cronista. Publicou livros como "O Viajante e a Estrada" e "Um Tirar de Vento", e suas crônicas, muitas vezes publicadas em jornais, refletiam seu olhar agudo e sensível sobre a vida.
Sua morte, em 2020, deixou uma grande lacuna na cultura brasileira. Aldir Blanc nos deixou um legado de letras que são verdadeiras obras de arte, demonstrando a profunda ligação entre a música, a poesia e a história do Brasil.
Curiosidade: A música "O Bêbado e o Equilibrista", foi interpretada pela primeira vez em público pela cantora Elis Regina, em 1979, durante a sua participação no Show "Saudade do Brasil", realizado no Hotel Nacional, no Rio de Janeiro.
A Lei Aldir Blanc (Lei nº 14.017/2020) foi criada para oferecer apoio financeiro ao setor cultural brasileiro, que foi duramente atingido pela pandemia de COVID-19. Ela levou o nome desse nosso amado compositor e letrista em sua homenagem, pois ele faleceu vítima da doença em maio de 2020, tornando-se um símbolo da importância da cultura e da necessidade de seu apoio.
A partir do encerramento deste plano emergencial, o Congresso Nacional aprovou em significativa votação a Lei nº 14.399/2022 que estabeleceu as diretrizes e os princípios da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Para sua implementação prática e operacionalização, o Ministério da Cultura (MinC) emite Decretos e Instruções Normativas (INs) que detalham como os estados, o Distrito Federal e os municípios devem aplicar os recursos e como os agentes culturais podem acessá-los. Todo cidadão pode acompanhar sua evolução e seus decretos através da página oficial da PNAB no site do Ministério da Cultura.
N. do A.: Escrevo esse artigo, novamente em um momento conflitante no Brasil, ironicamente ocorrendo entre colegas de Imprensa, grande parte da sociedade fragmentada e a crescente tensão nas relações exteriores - quando um espantoso séquito de personalidades públicas, insistem em bradar contra o Processo de Anistia, alguns após já terem se servido dele. Inequivocadamente esse deveria ser um direito comum assegurado a todo cidadão no planeta - que se sinta e comprove ser um perseguido político independente do contexto histórico social. Com nobreza de alma, Aldir restringiu-se ser poeta e nos brindou com seu magno legado.
(Tony Ferrari é jornalista/radialista - MTb-MG/DRT-SP e músico nas raras horas de lazer)







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